— Bem vindos à Meia Noite. – disse, abrindo as mãos em um gesto de acolhida. Ela
tinha unhas grandes e translúcidas. – Alguns de vocês já estiveram aqui antes. Outros já
ouviram falar da Academia Meia Noite durante anos, talvez as suas famílias, e vocês se
perguntaram se algum dia entrariam em nossa escola. Este ano, aliás, contamos com um
novo tipo de estudantes, resultados de uma mudança na política de admissão.
Acreditamos que há chegado o momento de que nossos alunos conheçam um leque maior
de pessoas de origens variadas e, deste modo, prepará-los melhor para o mundo que os
esperam do outro lado das paredes de nossa instituição. Todos nós temos muito que
aprender desses outros estudantes, e estou certa que os tratarão com o respeito que
merecem.
Para o caso, poderiam ter pintado com spray vermelho em gigantescas letras:
ALGUNS DE VOCÊS NÃO SE ENCAIXAM AQUI. A "nova política de admissão" era,
sem dúvida, a responsável da presença do surfista e da garota do cabelo curto. Pelo visto,
nem se quer os consideravam "verdadeiros" alunos da Meia Noite, sendo que
representavam unicamente uma experiência educativa para os alunos "legítimos".
Eu não fazia parte da nova política. Se não fossem por meus pais, não estaria ali.
Em outras palavras: nem sequer era suficientemente diferente deles para me
considerarem um dos marginalizados.
— Em Meia Noite não tratamos nossos alunos como se fossem crianças. – A
senhora Darbus não se dirigia a ninguém especificamente, mas parecia se limitar a
observar por cima de todos com uma espécie de olhar distante que, no entanto, abrangia a
tudo o que entrava em seu campo de visão. – Eles têm vindo para aprender a se
comportar como adultos do século XXI, e assim é como se espera que se comportem. No
entanto, isso não significa que Meia Noite careça de normas. A posição que ocupamos
nos exige manter a mais estrita das disciplinas. Esperamos muito de vocês.
Não mencionou quais seriam as repercussões no caso de quebrarem as regras, mas
eu temia que os castigos só fossem o aperitivo.
Minhas mãos suavam. Estava cada vez mais corada e tinha a impressão que
chamava a atenção como um sinalizador. Eu tinha me prometido ser forte e não permitir
que as pessoas me intimidassem, mas palavras os ventos levam. Os altos tetos e as
paredes do grande saguão, parecia se fechar sobre mim. Inclusive senti que começava a
ficar sem ar.
Minha mãe conseguiu chamar minha atenção sem me fazer nenhum gesto nem me
chamar pelo nome, como costumam fazer as mães. Meus pais estavam em uma das
extremidades da fila de professores esperando para que os apresentassem e ambos
sorriram para mim com confiança. Eles queriam ver-me desfrutar do momento.
A infundada esperança foi o que sobrecarregou o copo. Já era suficientemente duro
ter que lutar contra o medo, para por cima me ver obrigada a enfrentar a sua decepção.
— As aulas começarão amanhã. – concluiu senhora Darbus – Por hoje, instalemse
em seus quartos, apresentem-se a seus colegas, passeiem pelas instalações. Contamos
com que estejam preparados. É um prazer tê-los aqui e esperamos que vocês saibam
aproveitar sua estadia em Meia Noite.
A sala irrompeu em aplausos e a senhora Darbus os agradeceu com um ligeiro
sorriso e uma caída de olhos, um piscar lento e satisfeito, como o de um gato bem
alimentado. Em seguida, o sussurro generalizado voltou a se impor na sala, mais violento
do que antes. Só tinha uma pessoa com que eu desejava falar e estava claro que essa
poderia ser a única pessoa que talvez se interessasse em falar comigo.
Rodeei toda a sala mantendo as costas sempre pressas à parede. O procurei entre a
multidão com desesperação, ansiando um vislumbre da faísca de cabelo castanho escuro de Joe, suas largas costas ou seus olhos verdes escuros. Se eu o procurava e
ele estivesse me procurando, cedo ou tarde teríamos que nos encontrar. Apesar do pânico
que me provocavam as massificações de pessoas, e minha tendência de exagerá-las, sabia
que só tinha uns duzentos alunos naquele lugar.
Disse a mim mesma que Joe se sobressairia, que não era como os outros: frio,
pedante e vaidoso. No entanto, em seguida compreendi o quão enganada eu estava. Joe
não era pedante, mas compartilhava o mesmo aspecto: traços belos e definidos, o mesmo
corpo de perfeitas proporções e a mesma... em fim, a mesma perfeição. Não se destacaria
demais no meio daquelas pessoas tão perfeitas porque na verdade ele fazia parte delas.
Diferente de mim.
À medida que os professores e alunos se dispersavam, a multidão foi gradualmente
diminuindo. Fiquei vagando por lá até que fui quase a única que ficou no grande saguão.
Eu estava convencida que Joe viria me procurar. Ele sabia o quão assustada eu estava e
se sentia responsável por ter me assustado ainda mais. Será que ele nem se quer queria
me cumprimentar?
No entanto, ele não apareceu. No final tive que aceitar que o tinha julgado mal e
isso significava que não tinha mais remédio a não ser ir conhecer minha colega de quarto.
Subi os degraus de pedra lentamente. Meus sapatos novos de solas duras repicavam
contra o chão e meus passos ressoavam com grande escândalo. O que eu tinha desejado
era continuar subindo até o último andar e ir diretamente para o apartamento dos meus
pais, mas sabia que me iriam me enviar escada a baixo imediatamente assim que eu
abrisse a porta. Eu tinha tempo de sobra para pegar minhas coisas e me mudar
definitivamente depois de comer. No momento a prioridade era “me instalar”.
Tentei olhar pelo lado positivo. Talvez a escola tivesse intimidado minha colega de
quarto tanto quanto a mim. Certamente as coisas seriam mais simples se eu convivesse
com outra "marginalizada". Ia ser uma tortura ter que viver com uma estranha, me ver
obrigada a compartilhar o mesmo espaço com alguém a quem eu não conhecia, inclusive
de noite, ainda que eu esperava que isso acabaria passando. Nem nos meus melhores
sonhos imaginava fazer amizade com ninguém.
No formulário dizia "Miley Ray Cyrus”. Tentei relacionar o nome com a garota
que lembrava, mas ela não batia com ele, mas quem poderia saber?
Abri a porta e descobri, com a alma nos pés, que o nome de minha colega lhe servia
como um anel no dedo. Não era nenhuma marginal. Na verdade era a mesma
personificação do protótipo da Meia Noite.
A pele de Miley tinha a tonalidade de um rio ao amanhecer, uma pele excelentemente torrada e suave, e tinha o cabelo encaracolado preso em um coque frouxo
que deixava à vista seus brincos de pérolas e um esbelto pescoço. Estava sentada diante
da penteadeira e me olhou enquanto ordenava cuidadosamente seus vidros de esmaltes.
— Então você é Demi – disse. Nem apertos de mão, nem abraços, somente o
tilintar dos esmaltes contra a penteadeira: rosa pálido, coral, melão, branco – Você não é
como eu esperava.
Muito obrigada.
— Eu digo o mesmo.
Miley inclinou a cabeça e me esquadrinhou com o olhar. Perguntei-me se já nos
odiávamos. Levantou uma mão com manicura perfeita e começou a deixar claro vários
pontos contando com os dedos.
quinta-feira, 6 de maio de 2010
terça-feira, 4 de maio de 2010
capitulo 5
Era o mesmo tipo de discurso que ele fazia quando eu era pequena antes de ter que
engolir o xarope para tosse.
— Não quero voltar a ter essa conversa agora.
— Patrick, deixe-a em paz. – Minha mãe me estendeu um copo antes de voltar para
a cozinha, onde havia algo fritando em uma frigideira. – Além do mais, como não
acordamos cedo, nós vamos chegar tarde à reunião do corpo docente antes da
apresentação.
Meu pai consultou a hora e resmungou.
— Por que colocam essas coisas tão cedo? Como se alguém quisesse ter que descer
lá à essas horas.
— Tem toda razão. – murmurou minha mãe.
Para eles, qualquer hora antes do meio dia era cedo demais. No entanto, tinham
trabalhado como professores desde que me lembrava, sem esquecerem nem um único dia
de sua grande disputa com as oito da manhã.
Acabaram de se preparar enquanto eu tomava o café da manhã, fizeram algumas
brincadeiras com intenção de me animar e me deixaram sozinha sentada à mesa. Pois
bem. Muito tempo depois que desceram as escadas e os ponteiros do relógio se
arrastaram sigilosamente para a hora da apresentação, eu continuei na cadeira. Acho que
eu tentava me convencer de que, enquanto não terminasse com meu café, não teriam que
ir conhecer todas essas pessoas novas.
O fato de que Joe estaria entre elas – um rosto amigo, um protetor – ajudava um
pouco. Mas não muito.
Finalmente, quando ficou óbvio que não poderia mais adiar, entrei em meu quarto e
vesti o uniforme da Meia Noite. Odiava o uniforme; eu nunca havia tido que usá-lo. No
entanto, o pior de tudo foi que, ao entrar no meu quarto, voltei a recordar o estranho
pesadelo que tinha tido essa noite.
Uma camisa branca engomada.
Espinhos arranhando minha pele, me surrando, me animando a regressar.
Uma saia vermelha pregueada.
Pétalas se ondulando para cima e se escurecendo, como se queimassem no meio de
uma fogueira.
Um suéter cinza com o escudo da Meia Noite.
OK. Esta não é uma boa ocasião para deixar de ser uma mórbida irremediável?
Como já, por exemplo?
Decidida a me comportar como uma adolescente normal e comum pelo menos no
primeiro dia de aula, eu me olhei no espelho. O uniforme não me caia precisamente mal,
ainda que também não caia lindo de morrer. Fiz um rabinho no cabelo, sacudi um
raminho que tinha me passado despercebido e decidi não dar mais volta: já estava
preparada.
A gárgula continuava me encarando insistentemente, como se tivesse se
perguntando como era possível que alguém pudesse ter essa pinta. Ou talvez estivesse
zombando pelo tumultuoso fracasso do meu plano. Pelo menos não teria mais que olhar
para sua horripilante cara. Endireitei-me e saí do meu quarto... pela última vez: deixava
de me pertencer de agora em diante.
Tinha estado vivendo no internato com meus pais no último mês, então tive tempo
para explorar a escola de cima a baixo: desde o grande saguão até as classes importantes
no térreo, que depois se dividiam em duas torres enormes. Os garotos viviam na torre
Norte com parte dos apartamentos dos professores, e, além disso, tinha um par de salas
que cheiravam a mofo e estavam cheias de arquivos, onde pelo visto iam parar todos os
registros. As garotas se alojavam na Torre Sul, junto com o restante dos apartamentos dos
professores, incluindo minha família. Os andares superiores do edifício principal, em
cima do grande saguão, se alojavam as salas e a biblioteca. Com o tempo, tinham
ampliado e feito adições à Meia Noite, portanto nem todas as seções tinham o mesmo
estilo ou estavam em perfeita simetria com o resto. Havia alguns corredores serpenteantes
que não conduzia a parte alguma. Do quarto da minha torre eu estudava o telhado, um
manto de fragmentos de arcos, taboas e estilos diferentes. Tinha aprendido a me mover
pelo edifício e seus arredores, era a única forma para me sentir preparada para enfrentar o
que vinha pela frente.
Voltei a descer os degraus. Dava na mesma todas as vezes que fazia esse caminho,
sempre tinha a sensação de que cairia rolando pela desgastada escada até o último degrau.
Olha como você é idiota se preocupando com pesadelos com flores murchas ou com cair
da escada, disse a mim mesma. Aguardava-me algo muito mais assustador.
Cheguei embaixo e saí ao saguão. Essa mesma manhã, mais cedo, tudo estava em
silêncio, como em uma catedral. Agora, estava abarrotado de gente e suas vozes
ressoavam em todas as partes. Apesar dos barulhos, tive a sensação de que meus passos
retumbaram na sala porque várias pessoas se viraram para mim de uma vez; era como se
todo mundo tivesse se virado para olhar o intruso, como se eu levasse pendurado no
pescoço um letreiro em neon que dizia: A NOVA.
Os alunos, reunidos em grupos muito apertados para que pudesse entrar um recém
chegado, voltaram seus vivos olhos escuros para mim. Foi como se todos pudessem sentir
o pavor pairado do meu coração. Todos me pareciam iguais, não de uma maneira clara e
precisa, mas sim da perfeição que compartilhavam. Os cabelos de todas as garotas
brilhavam, e elas os deixavam soltos sobre os ombros ou presos em um elegante coque.
Todos os garotos pareciam seguros de si mesmos e vigorosos, com sorrisos que lhes
serviam de máscaras. Todo mundo vestia o uniforme: suéteres, saias, jaquetas e calças
com todas as variações possíveis: cinzas, vermelhos, com xadrez, pretos. Todos levavam
o escudo do corvo bordado e o resplandeciam como se fosse o brasão de sua família.
Todos esbanjavam segurança, superioridade e desdém. Senti o calor que se desprendia ali
em pé, na periferia do lugar, mudando de um pé para o outro, desconfortável.
Ninguém me cumprimentou.
O murmúrio geral voltou a se impor imediatamente. Pelo visto, as garotas novas
deselegantes não mereciam mais que alguns instantes de atenção. Minhas bochechas
queimavam de vergonha, porque era óbvio que tinha feito alguma coisa errada, mas não
consegui imaginar o que poderia ser. Por acaso teriam sentido, assim como eu, que na
verdade eu não iria me encaixar ali?
Perguntei-me por onde andava Joe. Estiquei o pescoço, o procurando pela
multidão. Achava que poderia enfrentar tudo aquilo se Joe estivesse do meu lado.
Talvez fosse uma idiotice nutrir esse tipo de sentimento para um cara que eu mal
conhecia, mas o fiz assim mesmo. Joe tinha que estar em algum lugar, mas não
consegui encontrá-lo. Sentia-me completamente sozinha no meio de todas essas pessoas.
À medida que ia margeando o salão para um canto, comecei a reparar em que havia
outros alunos que estavam na mesma situação que eu ou, pelo menos, que também eram
novos. Um garoto loiro com um bronzeado de praia vestia uma roupa tão amassada que
dava a impressão ter dormido vestindo ela, ainda que precisamente ali não parecesse que
ir super-informal fosse te fazer ganhar pontos. Por baixo da jaqueta, mas encima do
suéter, usava aberta uma camisa Havaiana de cores tão berrantes que se destacavam na
penumbra de Meia Noite. Também havia uma garota com o cabelo muito escuro e tão
curto que parecia um garoto. O corte de cabelo não era descontraído e juvenil, mas sim
dava a impressão de que foi feito com uma navalha de barbear de um jeito que melhor lhe
tinha parecido. O uniforme, dois números maior, penduravam pelos ombros. Era como se
as pessoas se afastassem dela, como se os repelisse com um campo de energia. Como se
fosse invisível. Tinham-lhe colocado o sambenito de insignificante, antes mesmo da
primeira aula.
Como eu podia ter tanta certeza disso? Bem, porque também tinha acontecido
comigo. Estava parada na periferia da multidão, agoniada pelos murmúrios, intimidada
pelo sagão de pedra e tão perdida quanto se pode estar.
— Atenção!
A voz retumbante quebrou o barulho e o reduziu ao silêncio. Todo mundo se voltou
de uma vez para o extremo do grande saguão, onde a Senhora Darbus, a diretora, tinha
subido ao pódio.
Ela era uma mulher alta, de abundante cabelo escuro que levava preso no cangote,
com as mulheres da época vitoriana. Foi-me impossível adivinhar sua idade. Usava uma
blusa de renda que se fechava com um broche dourado no pescoço. Se você considera
que a severidade é um sinônimo de beleza, não haveria ninguém mais atrativo que ela. Eu
a tinha conhecido quando meus pais e eu nos instalamos nos apartamentos do corpo
docente e ela já tinha me intimidado um pouco, ainda que me obrigasse a lembrar que
mal a conhecia.
De qualquer forma, nesse momento ela parecia mais imponente ainda. Ao ver com
que imediata e facilidade impunha ordem naquela sala cheia de pessoas, – as mesmas que
haviam me excluído de mútuo e tácito acordo antes de me dar a oportunidade de que me
ocorresse algo que dizer – compreendi pela primeira vez que a senhora Darbus tinha
poder. E não se tratava do poder que acompanha de maneira inerente ao cargo de
diretora, mas sim ao poder real, ao inato.
engolir o xarope para tosse.
— Não quero voltar a ter essa conversa agora.
— Patrick, deixe-a em paz. – Minha mãe me estendeu um copo antes de voltar para
a cozinha, onde havia algo fritando em uma frigideira. – Além do mais, como não
acordamos cedo, nós vamos chegar tarde à reunião do corpo docente antes da
apresentação.
Meu pai consultou a hora e resmungou.
— Por que colocam essas coisas tão cedo? Como se alguém quisesse ter que descer
lá à essas horas.
— Tem toda razão. – murmurou minha mãe.
Para eles, qualquer hora antes do meio dia era cedo demais. No entanto, tinham
trabalhado como professores desde que me lembrava, sem esquecerem nem um único dia
de sua grande disputa com as oito da manhã.
Acabaram de se preparar enquanto eu tomava o café da manhã, fizeram algumas
brincadeiras com intenção de me animar e me deixaram sozinha sentada à mesa. Pois
bem. Muito tempo depois que desceram as escadas e os ponteiros do relógio se
arrastaram sigilosamente para a hora da apresentação, eu continuei na cadeira. Acho que
eu tentava me convencer de que, enquanto não terminasse com meu café, não teriam que
ir conhecer todas essas pessoas novas.
O fato de que Joe estaria entre elas – um rosto amigo, um protetor – ajudava um
pouco. Mas não muito.
Finalmente, quando ficou óbvio que não poderia mais adiar, entrei em meu quarto e
vesti o uniforme da Meia Noite. Odiava o uniforme; eu nunca havia tido que usá-lo. No
entanto, o pior de tudo foi que, ao entrar no meu quarto, voltei a recordar o estranho
pesadelo que tinha tido essa noite.
Uma camisa branca engomada.
Espinhos arranhando minha pele, me surrando, me animando a regressar.
Uma saia vermelha pregueada.
Pétalas se ondulando para cima e se escurecendo, como se queimassem no meio de
uma fogueira.
Um suéter cinza com o escudo da Meia Noite.
OK. Esta não é uma boa ocasião para deixar de ser uma mórbida irremediável?
Como já, por exemplo?
Decidida a me comportar como uma adolescente normal e comum pelo menos no
primeiro dia de aula, eu me olhei no espelho. O uniforme não me caia precisamente mal,
ainda que também não caia lindo de morrer. Fiz um rabinho no cabelo, sacudi um
raminho que tinha me passado despercebido e decidi não dar mais volta: já estava
preparada.
A gárgula continuava me encarando insistentemente, como se tivesse se
perguntando como era possível que alguém pudesse ter essa pinta. Ou talvez estivesse
zombando pelo tumultuoso fracasso do meu plano. Pelo menos não teria mais que olhar
para sua horripilante cara. Endireitei-me e saí do meu quarto... pela última vez: deixava
de me pertencer de agora em diante.
Tinha estado vivendo no internato com meus pais no último mês, então tive tempo
para explorar a escola de cima a baixo: desde o grande saguão até as classes importantes
no térreo, que depois se dividiam em duas torres enormes. Os garotos viviam na torre
Norte com parte dos apartamentos dos professores, e, além disso, tinha um par de salas
que cheiravam a mofo e estavam cheias de arquivos, onde pelo visto iam parar todos os
registros. As garotas se alojavam na Torre Sul, junto com o restante dos apartamentos dos
professores, incluindo minha família. Os andares superiores do edifício principal, em
cima do grande saguão, se alojavam as salas e a biblioteca. Com o tempo, tinham
ampliado e feito adições à Meia Noite, portanto nem todas as seções tinham o mesmo
estilo ou estavam em perfeita simetria com o resto. Havia alguns corredores serpenteantes
que não conduzia a parte alguma. Do quarto da minha torre eu estudava o telhado, um
manto de fragmentos de arcos, taboas e estilos diferentes. Tinha aprendido a me mover
pelo edifício e seus arredores, era a única forma para me sentir preparada para enfrentar o
que vinha pela frente.
Voltei a descer os degraus. Dava na mesma todas as vezes que fazia esse caminho,
sempre tinha a sensação de que cairia rolando pela desgastada escada até o último degrau.
Olha como você é idiota se preocupando com pesadelos com flores murchas ou com cair
da escada, disse a mim mesma. Aguardava-me algo muito mais assustador.
Cheguei embaixo e saí ao saguão. Essa mesma manhã, mais cedo, tudo estava em
silêncio, como em uma catedral. Agora, estava abarrotado de gente e suas vozes
ressoavam em todas as partes. Apesar dos barulhos, tive a sensação de que meus passos
retumbaram na sala porque várias pessoas se viraram para mim de uma vez; era como se
todo mundo tivesse se virado para olhar o intruso, como se eu levasse pendurado no
pescoço um letreiro em neon que dizia: A NOVA.
Os alunos, reunidos em grupos muito apertados para que pudesse entrar um recém
chegado, voltaram seus vivos olhos escuros para mim. Foi como se todos pudessem sentir
o pavor pairado do meu coração. Todos me pareciam iguais, não de uma maneira clara e
precisa, mas sim da perfeição que compartilhavam. Os cabelos de todas as garotas
brilhavam, e elas os deixavam soltos sobre os ombros ou presos em um elegante coque.
Todos os garotos pareciam seguros de si mesmos e vigorosos, com sorrisos que lhes
serviam de máscaras. Todo mundo vestia o uniforme: suéteres, saias, jaquetas e calças
com todas as variações possíveis: cinzas, vermelhos, com xadrez, pretos. Todos levavam
o escudo do corvo bordado e o resplandeciam como se fosse o brasão de sua família.
Todos esbanjavam segurança, superioridade e desdém. Senti o calor que se desprendia ali
em pé, na periferia do lugar, mudando de um pé para o outro, desconfortável.
Ninguém me cumprimentou.
O murmúrio geral voltou a se impor imediatamente. Pelo visto, as garotas novas
deselegantes não mereciam mais que alguns instantes de atenção. Minhas bochechas
queimavam de vergonha, porque era óbvio que tinha feito alguma coisa errada, mas não
consegui imaginar o que poderia ser. Por acaso teriam sentido, assim como eu, que na
verdade eu não iria me encaixar ali?
Perguntei-me por onde andava Joe. Estiquei o pescoço, o procurando pela
multidão. Achava que poderia enfrentar tudo aquilo se Joe estivesse do meu lado.
Talvez fosse uma idiotice nutrir esse tipo de sentimento para um cara que eu mal
conhecia, mas o fiz assim mesmo. Joe tinha que estar em algum lugar, mas não
consegui encontrá-lo. Sentia-me completamente sozinha no meio de todas essas pessoas.
À medida que ia margeando o salão para um canto, comecei a reparar em que havia
outros alunos que estavam na mesma situação que eu ou, pelo menos, que também eram
novos. Um garoto loiro com um bronzeado de praia vestia uma roupa tão amassada que
dava a impressão ter dormido vestindo ela, ainda que precisamente ali não parecesse que
ir super-informal fosse te fazer ganhar pontos. Por baixo da jaqueta, mas encima do
suéter, usava aberta uma camisa Havaiana de cores tão berrantes que se destacavam na
penumbra de Meia Noite. Também havia uma garota com o cabelo muito escuro e tão
curto que parecia um garoto. O corte de cabelo não era descontraído e juvenil, mas sim
dava a impressão de que foi feito com uma navalha de barbear de um jeito que melhor lhe
tinha parecido. O uniforme, dois números maior, penduravam pelos ombros. Era como se
as pessoas se afastassem dela, como se os repelisse com um campo de energia. Como se
fosse invisível. Tinham-lhe colocado o sambenito de insignificante, antes mesmo da
primeira aula.
Como eu podia ter tanta certeza disso? Bem, porque também tinha acontecido
comigo. Estava parada na periferia da multidão, agoniada pelos murmúrios, intimidada
pelo sagão de pedra e tão perdida quanto se pode estar.
— Atenção!
A voz retumbante quebrou o barulho e o reduziu ao silêncio. Todo mundo se voltou
de uma vez para o extremo do grande saguão, onde a Senhora Darbus, a diretora, tinha
subido ao pódio.
Ela era uma mulher alta, de abundante cabelo escuro que levava preso no cangote,
com as mulheres da época vitoriana. Foi-me impossível adivinhar sua idade. Usava uma
blusa de renda que se fechava com um broche dourado no pescoço. Se você considera
que a severidade é um sinônimo de beleza, não haveria ninguém mais atrativo que ela. Eu
a tinha conhecido quando meus pais e eu nos instalamos nos apartamentos do corpo
docente e ela já tinha me intimidado um pouco, ainda que me obrigasse a lembrar que
mal a conhecia.
De qualquer forma, nesse momento ela parecia mais imponente ainda. Ao ver com
que imediata e facilidade impunha ordem naquela sala cheia de pessoas, – as mesmas que
haviam me excluído de mútuo e tácito acordo antes de me dar a oportunidade de que me
ocorresse algo que dizer – compreendi pela primeira vez que a senhora Darbus tinha
poder. E não se tratava do poder que acompanha de maneira inerente ao cargo de
diretora, mas sim ao poder real, ao inato.
quinta-feira, 29 de abril de 2010
capitulo 4
Foi como se Joe pudesse ouvir essa voz, porque houve algo perturbador no jeito
que se virou para me olhar. Deveria parecer o típico cara Americano, com esses traços
tão marcados e os uniformes do colégio, mas ele não era. Durante minha fuga e nos
momentos que se sucederam, quando ele achava que estávamos tentando salvar a vida,
tinha percebido algo selvagem espreitando por baixo dessa fachada.
— Eu gosto de gárgulas, montanhas e ar puro. Isso é tudo.
— Você gosta de gárgulas?
— Eu gosto de monstros que sejam menores do que eu.
— Nunca tinha pensado dessa forma.
Tínhamos chegado às linhas dos prados. O sol brilhava com força e tive a sensação
de que a escola despertava e se preparava para receber os alunos e devorá-los através da
abobadada entrada de pedra.
— Ela me deixa apavorada. – Confessei.
— Ainda não é tarde demais para sair correndo, Demi. – Disse com toda
tranqüilidade.
— Não quero sair correndo, mas também não quero estar rodeada por estranhos.
Quando estou com pessoas que não conheço sou incapaz de falar, de agir normalmente
ou ser eu mesma... Porque está sorrindo?
— Bem, não me parece que você tenha tido muitos problemas para falar comigo.
Pisquei surpresa. Joe tinha razão. Como isso foi possível?
— Com você... suponho que... Acho que me assustou tanto que passou o medo do
choque. – balbuciei.
— Eh, pois funcionou.
— Sim. – No entanto senti que havia algo a mais. Os estranhos me davam pânico,
mas ele não era um estranho. Tinha deixado de ser quando entendi que ele tinha tentado
salvar minha vida. Tinha a sensação que conhecia Joe desde sempre, como se estivesse
esperando sua chegada durante anos. – Devo voltar antes que meus pais perceberem que
não estou.
— Não deixe que te passem sermões.
— Eles não vão.
Jow não parecia ter tanta certeza disso, mas assentiu e se afastou. Perdeu-se entre
as sombras enquanto eu entrava em um cerco de luz.
— Nos vemos por aí.
Levantei a mão para dizer adeus, mas Lucas já tinha ido. Ele tinha desaparecido
sigilosamente no bosque.
Voltava a subir a grande escada de caracol até chegar ao último andar da
torre, ainda trêmula por causa da descarga de adrenalina. Desta vez não
me preocupei em não fazer ruído. Larguei no chão a mochila que
levava no ombro e me desabei no sofá. Haviam ficado algumas folhas
emaranhadas no meu cabelo e comecei a tirá-las.
— Demi? – Minha mão saiu do seu quarto, amarrando o cinto do roupão. Sorriu
para mim sonolenta. – Levantou cedo para dar um passeio, coração?
— Sim – respondi, com um suspiro. Já não valia a pena montar uma cena
dramática.
Meu pai saiu em seguida e a abraçou por trás.
— Não posso acreditar que nossa garotinha já esteja na Academia Meia Noite.
— O tempo passa tão rápido... – lamentou-se minha mãe com um suspiro – Quanto
mais velho se fica, mais rápido passa.
Meu pai sacudiu a cabeça.
— Eu sei.
Resmunguei. Sempre diziam a mesma coisa e tínhamos transformado em uma
espécie de brincadeira o aborrecimento que me produzia. Os sorrisos dos meus pais se
expandiram.
"Parecem muito jovens para serem seus pais", muitas vezes comentavam as pessoas
da minha cidade, embora o que eles realmente queriam dizer era "bonitos demais". Em
ambos os casos era verdade.
O cabelo da minha mãe tinha um tom caramelo e o do meu pai era de um vermelho
tão escuro que parecia quase preto. Meu pai era de estatura média, mas musculoso e
robusto, enquanto minha mãe era bem baixinha. O rosto da minha mãe era perfeito e
oval, como um camafeu antigo, enquanto meu pai tinha o queixo quadrado e um nariz
que parecia ter participado de mais de uma briga na juventude, ainda que em seu rosto
fizesse um bom efeito. Enquanto eu... Meu cabelo tinha uma tonalidade preta que
só podia ser descrita assim: preto; e minha pele era tão branca que sofria de uma
palidez mais mortuária do que antiga. Ali onde o meu DNA poderia ter virado para a
direita, havia dado uma brusca virada para a esquerda. Meus pais diziam que eu me
tornaria uma mulher muito bonita, mas isso é o que costumam dizer todos os pais.
— Vamos te dar algo para o café da manhã. – disse minha mãe, se dirigindo à
cozinha. – ou você já comeu algo?
— Não, ainda não.
Cai em conta que não teria sido uma má idéia ter comido alguma coisa antes da
minha grande fuga, meu estômago roconcava. Se Joe não tivesse me detido, nesse
momento eu estaria vagando pelo bosque com uma fome de lobo e com uma longa
caminhada até Riverton pela frente. Grande plano de fuga.
Neste momento, me veio à mente a imagem de Joe se lançando sobre mim e nós
dois rolando entre a relva e as folhas. Tinha me dado um susto de morte e estremeci ao
me lembrar, embora agora que por razões bem diferentes.
— Demi – Meu pai parecia muito sério e o olhei com o sentimento de
culpabilidade. Por acaso ele tinha adivinhado o que eu estava pensando? Então percebi
que estava ficando paranóica, ainda que fosse incontestável que meu pai não sorria
quando se sentou do meu lado. – Sei que não é o que mais deseja, mas Meia Noite é
importante para você.
que se virou para me olhar. Deveria parecer o típico cara Americano, com esses traços
tão marcados e os uniformes do colégio, mas ele não era. Durante minha fuga e nos
momentos que se sucederam, quando ele achava que estávamos tentando salvar a vida,
tinha percebido algo selvagem espreitando por baixo dessa fachada.
— Eu gosto de gárgulas, montanhas e ar puro. Isso é tudo.
— Você gosta de gárgulas?
— Eu gosto de monstros que sejam menores do que eu.
— Nunca tinha pensado dessa forma.
Tínhamos chegado às linhas dos prados. O sol brilhava com força e tive a sensação
de que a escola despertava e se preparava para receber os alunos e devorá-los através da
abobadada entrada de pedra.
— Ela me deixa apavorada. – Confessei.
— Ainda não é tarde demais para sair correndo, Demi. – Disse com toda
tranqüilidade.
— Não quero sair correndo, mas também não quero estar rodeada por estranhos.
Quando estou com pessoas que não conheço sou incapaz de falar, de agir normalmente
ou ser eu mesma... Porque está sorrindo?
— Bem, não me parece que você tenha tido muitos problemas para falar comigo.
Pisquei surpresa. Joe tinha razão. Como isso foi possível?
— Com você... suponho que... Acho que me assustou tanto que passou o medo do
choque. – balbuciei.
— Eh, pois funcionou.
— Sim. – No entanto senti que havia algo a mais. Os estranhos me davam pânico,
mas ele não era um estranho. Tinha deixado de ser quando entendi que ele tinha tentado
salvar minha vida. Tinha a sensação que conhecia Joe desde sempre, como se estivesse
esperando sua chegada durante anos. – Devo voltar antes que meus pais perceberem que
não estou.
— Não deixe que te passem sermões.
— Eles não vão.
Jow não parecia ter tanta certeza disso, mas assentiu e se afastou. Perdeu-se entre
as sombras enquanto eu entrava em um cerco de luz.
— Nos vemos por aí.
Levantei a mão para dizer adeus, mas Lucas já tinha ido. Ele tinha desaparecido
sigilosamente no bosque.
Voltava a subir a grande escada de caracol até chegar ao último andar da
torre, ainda trêmula por causa da descarga de adrenalina. Desta vez não
me preocupei em não fazer ruído. Larguei no chão a mochila que
levava no ombro e me desabei no sofá. Haviam ficado algumas folhas
emaranhadas no meu cabelo e comecei a tirá-las.
— Demi? – Minha mão saiu do seu quarto, amarrando o cinto do roupão. Sorriu
para mim sonolenta. – Levantou cedo para dar um passeio, coração?
— Sim – respondi, com um suspiro. Já não valia a pena montar uma cena
dramática.
Meu pai saiu em seguida e a abraçou por trás.
— Não posso acreditar que nossa garotinha já esteja na Academia Meia Noite.
— O tempo passa tão rápido... – lamentou-se minha mãe com um suspiro – Quanto
mais velho se fica, mais rápido passa.
Meu pai sacudiu a cabeça.
— Eu sei.
Resmunguei. Sempre diziam a mesma coisa e tínhamos transformado em uma
espécie de brincadeira o aborrecimento que me produzia. Os sorrisos dos meus pais se
expandiram.
"Parecem muito jovens para serem seus pais", muitas vezes comentavam as pessoas
da minha cidade, embora o que eles realmente queriam dizer era "bonitos demais". Em
ambos os casos era verdade.
O cabelo da minha mãe tinha um tom caramelo e o do meu pai era de um vermelho
tão escuro que parecia quase preto. Meu pai era de estatura média, mas musculoso e
robusto, enquanto minha mãe era bem baixinha. O rosto da minha mãe era perfeito e
oval, como um camafeu antigo, enquanto meu pai tinha o queixo quadrado e um nariz
que parecia ter participado de mais de uma briga na juventude, ainda que em seu rosto
fizesse um bom efeito. Enquanto eu... Meu cabelo tinha uma tonalidade preta que
só podia ser descrita assim: preto; e minha pele era tão branca que sofria de uma
palidez mais mortuária do que antiga. Ali onde o meu DNA poderia ter virado para a
direita, havia dado uma brusca virada para a esquerda. Meus pais diziam que eu me
tornaria uma mulher muito bonita, mas isso é o que costumam dizer todos os pais.
— Vamos te dar algo para o café da manhã. – disse minha mãe, se dirigindo à
cozinha. – ou você já comeu algo?
— Não, ainda não.
Cai em conta que não teria sido uma má idéia ter comido alguma coisa antes da
minha grande fuga, meu estômago roconcava. Se Joe não tivesse me detido, nesse
momento eu estaria vagando pelo bosque com uma fome de lobo e com uma longa
caminhada até Riverton pela frente. Grande plano de fuga.
Neste momento, me veio à mente a imagem de Joe se lançando sobre mim e nós
dois rolando entre a relva e as folhas. Tinha me dado um susto de morte e estremeci ao
me lembrar, embora agora que por razões bem diferentes.
— Demi – Meu pai parecia muito sério e o olhei com o sentimento de
culpabilidade. Por acaso ele tinha adivinhado o que eu estava pensando? Então percebi
que estava ficando paranóica, ainda que fosse incontestável que meu pai não sorria
quando se sentou do meu lado. – Sei que não é o que mais deseja, mas Meia Noite é
importante para você.
divulgando
gente o primeiro blog eh de uma garota que vai termina a minha primeira historia , aquela do jj
http://jemi-amorevivervivereamor.blogspot.com/
o outro eh de uma amiga, ela vai faze a historia da outra sinopse que eu sugeri
http://renatajemistory.blogspot.com/
beijemi
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o outro eh de uma amiga, ela vai faze a historia da outra sinopse que eu sugeri
http://renatajemistory.blogspot.com/
beijemi
quarta-feira, 28 de abril de 2010
capitulo 3
Neste momento Joe me fez uma pergunta que deixou deslocada:
— Quer realmente ir embora daqui?
— Está se referindo a... fugir? Realmente fugir?
Joe assentiu e parecia que o dizia muito a sério. Ainda que não pudesse ser. Com
certeza ele tinha me perguntado para me trazer de volta à realidade.
— Não, não quero – admiti finalmente – Vou voltar e me preparar para ir às aulas
como uma boa menina.
Outra vez esse sorriso.
— Ninguém te obriga a se comportar como uma boa menina.
Seu modo de dizer isso me reconfortou.
— É que... A Academia Meia Noite... Não sei se eu vou saber me encaixar neste
lugar.
— Eu não me preocuparia com isso. Pode ser que não seja tão ruim acabar não se
encaixando neste lugar.
Ele me olhou fixamente, muito sério, como se soubesse de outro lugar em que
pudesse encaixar melhor. Ou ele realmente gostava de mim ou estava imaginando porque
queria que ele gostasse. A experiência praticamente nula sobre esse tema me impediu de
saber.
Coloquei-me em pé a toda pressa.
— E o que você estava fazendo quando me viu? – Perguntei, enquanto ele também
se levantava.
— Eu já te disse, achei que precisava de ajuda. Por aqui passam pessoas que são um
pouco baderneiras. Nem todo mundo sabe se controlar. – Ele retirou algumas agulhas de
pinheiro do suéter. – Não deveria ter tirado conclusões precipitadas, mas agi por instinto.
Desculpe.
— Não se preocupe, de verdade. Já sei que queria me ajudar. Eu me referia ao que
estava fazendo antes de me ver. A apresentação só começará dentro de algumas horas e
ainda é muito cedo. Disseram para os alunos que chegassem por volta das dez.
— Nunca fui bom em seguir regras.
Aquilo estava começando a me parecer interessante.
— Então... Você é uma dessas pessoas matinais que se levantam de um salto pelas
manhãs?
— De jeito nenhum, mas eu ainda não dormi. – Ele tinha um sorriso cativante e eu
me dei conta que ele sabia como utilizar-lo. E eu não me importava. – De qualquer
forma, minha mãe não podia me acompanhar. Ela está fora, podemos dizer que de
viagem de negócios. Peguei o trem noturno e decidi chegar a pé, para conhecer o terreno
em que pisava e... Resgatar donzelas em apuros.
Ao me lembrar a que velocidade ele tinha corrido atrás de mim e entender que ele o
tinha feito para salvar minha vida, o foco da recordação mudou completamente: todos
meus medos se desvaneceram e sorri.
— Porque está vindo para a Meia Noite? Eu sou forçada a ficar pelos meus pais,
mas certamente você poderia ir a qualquer outro lugar. Um lugar melhor. Como... sei lá,
qualquer lugar.
Joe parecia sem saber o que responder. Ele ia afastando os ramos enquanto abria
caminho pelo bosque para que não batessem no meu rosto. Nunca antes tinham me aberto
passagem.
— É uma longa história.
— Não estou com presa para voltar. Além do mais, ainda faltam quatro horas até a
apresentação.
Joe inclinou a cabeça, mas não afastou o olhar de mim. Tinha algo
incontestavelmente sedutor neste movimento, ainda que não tivesse certeza de que ele
pretendia produzir esse efeito.
A cor dos olhos era quase idêntica ao da terra em que pisavamos.
— É que também é uma espécie de um segredo.
— Sei guardar segredos. Quero dizer, você vai manter em segredo esse assunto por
mim, certo? Refiro-me a sair correndo e morrendo de medo...
— Não vou contar a ninguém. – no final de alguns segundo de hesitação, Joe
acabou me contando a verdade. – Há uns cento e cinqüenta anos, um antepassado meu
tentou entrar no internato. Pode-se dizer que ele foi suspenso. – Joe começou a rir e foi
como se a luz do sol tivesse irrompido entre as arvores. – Por isso, depende de mim “para
limpar a honra da família".
— Não é justo. Não deveria ter que tomar suas decisões dependendo do que ele fez
ou deixou de fazer.
— Não todas, me deixam escolher as meias.
Sorri quando ele subiu a perna da calça para me mostrar a meia com losangos que
se mostrava por cima da pesada bota preta.
— Por que suspenderam seu tataravô ou o que quer que seja?
Joe sacudiu tristemente a cabeça.
— Foi combatido em um duelo na primeira semana.
— Um duelo? Vamos lá, alguém insultou sua honra? – Tentei me lembrar o que
tinha aprendido sobre duelos nas novelas e filmes românticos. O que estava claro era que
a história de Joe era definitivamente muito mais interessante que a minha. – Ou foi por
uma garota?
— Bem, ele teria que ter aproveitado muito bem o tempo para conhecer uma única
garota nos primeiros dias de aula.
Joe parou como se tivesse acabado de se dar conta que era o primeiro dia de aula
e ele já tinha conhecido uma garota. Senti um impulso, como se algo me puxasse
fisicamente para ele, mas nesse momento Joe virou a cabeça e cravou o olhar nas
torres de Meia Noite, que se avistava entre os ramos dos pinheiros. Foi como se o edifício
o tivesse ofendido.
— Pode ter sido por qualquer coisa. Então travaram um duelo à mínima mudança.
Segundo a lenda familiar, o outro cara foi quem começou, embora a verdade, é que da na
mesma. O que importa é que ele sobreviveu, mas não sem antes quebrar uma das vidraças
do Saguão.
— Ah, claro, tem uma com cristais transparentes e não sabia por quê.
— Agora você já sabe. Desde então, Meia Noite fechou as portas para minha
família.
— Até agora.
— Até agora. – Concordou. – E não me importo. Acho que aqui aprenderei muitas
coisas, mas isso não significa que eu tenha que gostar do que vejo.
— Pois eu não estou certa que gosto de algo. – Confessei. "Exceto você",
acrescentou uma voz interior, que tinha se arrebatado de repente.
— Quer realmente ir embora daqui?
— Está se referindo a... fugir? Realmente fugir?
Joe assentiu e parecia que o dizia muito a sério. Ainda que não pudesse ser. Com
certeza ele tinha me perguntado para me trazer de volta à realidade.
— Não, não quero – admiti finalmente – Vou voltar e me preparar para ir às aulas
como uma boa menina.
Outra vez esse sorriso.
— Ninguém te obriga a se comportar como uma boa menina.
Seu modo de dizer isso me reconfortou.
— É que... A Academia Meia Noite... Não sei se eu vou saber me encaixar neste
lugar.
— Eu não me preocuparia com isso. Pode ser que não seja tão ruim acabar não se
encaixando neste lugar.
Ele me olhou fixamente, muito sério, como se soubesse de outro lugar em que
pudesse encaixar melhor. Ou ele realmente gostava de mim ou estava imaginando porque
queria que ele gostasse. A experiência praticamente nula sobre esse tema me impediu de
saber.
Coloquei-me em pé a toda pressa.
— E o que você estava fazendo quando me viu? – Perguntei, enquanto ele também
se levantava.
— Eu já te disse, achei que precisava de ajuda. Por aqui passam pessoas que são um
pouco baderneiras. Nem todo mundo sabe se controlar. – Ele retirou algumas agulhas de
pinheiro do suéter. – Não deveria ter tirado conclusões precipitadas, mas agi por instinto.
Desculpe.
— Não se preocupe, de verdade. Já sei que queria me ajudar. Eu me referia ao que
estava fazendo antes de me ver. A apresentação só começará dentro de algumas horas e
ainda é muito cedo. Disseram para os alunos que chegassem por volta das dez.
— Nunca fui bom em seguir regras.
Aquilo estava começando a me parecer interessante.
— Então... Você é uma dessas pessoas matinais que se levantam de um salto pelas
manhãs?
— De jeito nenhum, mas eu ainda não dormi. – Ele tinha um sorriso cativante e eu
me dei conta que ele sabia como utilizar-lo. E eu não me importava. – De qualquer
forma, minha mãe não podia me acompanhar. Ela está fora, podemos dizer que de
viagem de negócios. Peguei o trem noturno e decidi chegar a pé, para conhecer o terreno
em que pisava e... Resgatar donzelas em apuros.
Ao me lembrar a que velocidade ele tinha corrido atrás de mim e entender que ele o
tinha feito para salvar minha vida, o foco da recordação mudou completamente: todos
meus medos se desvaneceram e sorri.
— Porque está vindo para a Meia Noite? Eu sou forçada a ficar pelos meus pais,
mas certamente você poderia ir a qualquer outro lugar. Um lugar melhor. Como... sei lá,
qualquer lugar.
Joe parecia sem saber o que responder. Ele ia afastando os ramos enquanto abria
caminho pelo bosque para que não batessem no meu rosto. Nunca antes tinham me aberto
passagem.
— É uma longa história.
— Não estou com presa para voltar. Além do mais, ainda faltam quatro horas até a
apresentação.
Joe inclinou a cabeça, mas não afastou o olhar de mim. Tinha algo
incontestavelmente sedutor neste movimento, ainda que não tivesse certeza de que ele
pretendia produzir esse efeito.
A cor dos olhos era quase idêntica ao da terra em que pisavamos.
— É que também é uma espécie de um segredo.
— Sei guardar segredos. Quero dizer, você vai manter em segredo esse assunto por
mim, certo? Refiro-me a sair correndo e morrendo de medo...
— Não vou contar a ninguém. – no final de alguns segundo de hesitação, Joe
acabou me contando a verdade. – Há uns cento e cinqüenta anos, um antepassado meu
tentou entrar no internato. Pode-se dizer que ele foi suspenso. – Joe começou a rir e foi
como se a luz do sol tivesse irrompido entre as arvores. – Por isso, depende de mim “para
limpar a honra da família".
— Não é justo. Não deveria ter que tomar suas decisões dependendo do que ele fez
ou deixou de fazer.
— Não todas, me deixam escolher as meias.
Sorri quando ele subiu a perna da calça para me mostrar a meia com losangos que
se mostrava por cima da pesada bota preta.
— Por que suspenderam seu tataravô ou o que quer que seja?
Joe sacudiu tristemente a cabeça.
— Foi combatido em um duelo na primeira semana.
— Um duelo? Vamos lá, alguém insultou sua honra? – Tentei me lembrar o que
tinha aprendido sobre duelos nas novelas e filmes românticos. O que estava claro era que
a história de Joe era definitivamente muito mais interessante que a minha. – Ou foi por
uma garota?
— Bem, ele teria que ter aproveitado muito bem o tempo para conhecer uma única
garota nos primeiros dias de aula.
Joe parou como se tivesse acabado de se dar conta que era o primeiro dia de aula
e ele já tinha conhecido uma garota. Senti um impulso, como se algo me puxasse
fisicamente para ele, mas nesse momento Joe virou a cabeça e cravou o olhar nas
torres de Meia Noite, que se avistava entre os ramos dos pinheiros. Foi como se o edifício
o tivesse ofendido.
— Pode ter sido por qualquer coisa. Então travaram um duelo à mínima mudança.
Segundo a lenda familiar, o outro cara foi quem começou, embora a verdade, é que da na
mesma. O que importa é que ele sobreviveu, mas não sem antes quebrar uma das vidraças
do Saguão.
— Ah, claro, tem uma com cristais transparentes e não sabia por quê.
— Agora você já sabe. Desde então, Meia Noite fechou as portas para minha
família.
— Até agora.
— Até agora. – Concordou. – E não me importo. Acho que aqui aprenderei muitas
coisas, mas isso não significa que eu tenha que gostar do que vejo.
— Pois eu não estou certa que gosto de algo. – Confessei. "Exceto você",
acrescentou uma voz interior, que tinha se arrebatado de repente.
capitulo 2
— Ah! – gritei meio asfixiada quando ele saltou sobre mim e caímos rolando.
Bati com as costas e ele me esmagou contra o chão com seu peso e suas pernas,
entrelaçadas com as minhas. Tampou minha boca com uma mão, mas eu consegui
libertar um braço. Nas aulas de autodefesa do meu antigo colégio, sempre dizia que tinha
que ir direto aos olhos, que tinha que golpeá-los, sem contemplações. Nunca tive dúvida
de poder fazê-lo quando tivesse na ocasião, já que seria para me colocar a salvo ou para
ajudar outra pessoa, mas estava tão apavorada que não sabia se poderia fazê-lo. Dobrei os
dedos, numa tentativa de me armar de algum valor.
— Você viu quem te seguia? – Sussurrou o sujeito nesse momento.
O olhei fixamente por alguns instantes. Ele retirou a mão da minha boca para que eu
pudesse responder. Minha cabeça pesava muito e tudo estava dando voltas.
— Está se referindo além de você? – Consegui dizer finalmente.
— De mim? – Ele nem tinha idéia do que eu estava falando. O sujeito lançou um
olhar furtivo por suas costas, como se continuasse na defensiva. – Você estava correndo
porque alguém estava te perseguindo... Não?
— Eu só corria. O único que me perseguia era você.
— Quer dizer que achava que... – O cara se separou de mim imediatamente para
que eu pudesse me mover. – Ah, ok, sinto muito. Não era minha intenção... Cara, devo
ter te dado um susto de morte.
— Então, sua intenção era me ajudar?
Tive que dizer em voz alta antes de conseguir acreditar. Ele assentiu vigorosamente
com a cabeça. Estava com o rosto muito próximo ao meu, perto demais, o que impedia de
ver outra coisa. Era como somente existíssemos nós dois e a névoa que se espessava ao
nosso redor.
— Sei que devo ter te assustado e sinto muito mesmo. Achava que...
Suas palavras não estavam servindo de grande ajuda. Estava cada vez mais irritada,
não menos. Precisava de ar e me tranqüilizar, entretanto isso era algo impossível com ele
tão perto de mim. Fiz um sinal com um dedo e disse algo que não creio ter falado a muita
gente, muito menos a um estranho, e muito menos ainda ao estranho que mais tinha me
aterrorizado na minha vida:
— Você... você quer... calar a boca?
Ele se calou.
Deixei cair minha cabeça contra o chão, soltando um suspiro. Levei as mãos nos
olhos e os apertei até ver tudo vermelho. Eu ainda tinha o gosto do sangue na boca e o
coração batia com tanta força que era como se meu peito estremecesse. Mais um pouco e
eu me mijava, talvez a única coisa que faltou para que aquela situação fosse mais
humilhante do que já era por si. No entanto, me limitei a respirar fundo, pouco a pouco,
até que me senti com forças para me recompor.
O cara continuava do meu lado.
— Por que me atirou no chão? – Consegui perguntar.
— Pensei que tínhamos que nos proteger e nos esconder de quem a estava
perseguindo, que no final se revelou ser, este... ninguém.
Ele parecia bem envergonhado.
Abaixou a cabeça e o olhei com tranqüilidade pela primeira vez. A verdade é que eu
não tinha tido tempo de me fixar em nada: quando a primeira coisa que pensa de alguém
é que ele é um "assassino pirado", você não analisa os detalhes. Dei-me conta que não se
tratava se um homem adulto, como eu tinha achado. Ainda que fosse alto e tivesse costas
largas, era jovem, talvez da mesma idade que eu. A corrida tinha-lhe alvoroçado o cabelo,
liso e preto, que caía na testa ocultando os olhos castanhos incrivelmente
escuros. Tinha a mandíbula forte e angulosa, e o corpo musculoso e robusto.
No entanto, o mais surpreendente de tudo era o que levava sob o casaco preto: botas
pretas, bastante surradas, calças pretas de lã e um suéter vermelho escuro de gola V,
estampado com um brasão: Dois corvos bordados de cada lado de uma espada prateada.
O escudo da Meia Noite.
— Você é aluno da escola. – eu disse.
— Bem, vou ser. – respondeu em voz baixa, como se temesse voltar a me assustar.
– E você?
Assenti com a cabeça enquanto desfazia o coque para refazê-lo.
— É o meu primeiro ano. Meus pais encontraram trabalho de professores, assim
que... me toca passar pelo aro.
Ele pareceu se surpreender, pois franziu o cenho. De repente seu olhar se voltou
mais inquieto e inseguro, porém se recompôs em seguida e me estendeu a mão.
— Joe Jonas
— Olá. – Me sentia estranha em me apresentar a alguém que há cinco minutos eu
achava que queria me matar. – Demi Lovato.
— Seu coração está a mil por hora. – murmurou Joe. Voltou a me olhar com
olhos inquisidores e fiquei nervosa, ainda que por motivos diferentes. – Ok, se não corria
por que tinha alguém te perseguindo, então porque corria daquela forma? Por que a mim
não pareceu que você estava dando no pé exatamente.
Eu teria mentido se me tivesse ocorrido uma desculpa cabível, mas não me ocorreu.
— Levantei de madrugada para... Bem, para fugir.
— Seus pais não te tratam bem? Eles te batem?
— Não! Não é isso. – Me senti muito ofendida, mas entendi que era lógico que
Joe deduzisse algo do tipo. Porque alguém em seu perfeito juízo entraria no bosque
antes de nascer o sol e disparar a correr como se a vida dependesse disso? Acabávamos
de nos conhecer, portanto Joe talvez pensasse que estava falando com uma pessoa sã.
Decidi não mencionar o pesadelo recorrente, pois isso pesou na balança para o lado
"louco". – É que eu não quero ir para essa escola. Eu gostava da minha cidade e, além do
mais, a Academia Meia Noite é... É tão...
— Faz com que arrepiem seus cabelos.
— Isso.
— Aonde você ia? Encontrou um trabalho em algum lugar por aí ou algo assim?
Eu estava corada e não era só pelo esforço físico da corrida.
— Ah, não. Na realidade eu não estava fugindo de verdade, só estava levando o
cabo uma... declaração de princípios, ou algo assim. Pensei que fizesse alguma coisa
desse tipo, meus pais finalmente entenderiam o quanto detesto estar aqui e talvez
fossemos embora.
Joe me olhou incrédulo e então sorriu. Seu sorriso transformou a estranha energia
que tinha se acumulado dentro de mim e transformou o medo em curiosidade, até mesmo
em entusiasmo.
— Como eu com o estilingue.
— O quê?
— Quando eu tinha cinco anos, pensei que meus pais estavam sendo injustos
comigo e decidi ir embora de casa. Levei o estilingue comigo porque já era todo um
machão, se me endente e eu era capaz de cuidar de mim mesmo. Acho que também levei
uma lanterna e um pacote de Oreo.
Apesar do aturdimento, me escapou um sorriso.
— Acho que estava mais preparado do que eu.
— Saí muito digno da casa em que vivíamos e cheguei até... o final do quintal dos
fundos, então resolvi resistir ali mesmo. Fiquei lá fora o dia todo, até que começou a
chover. Eu não tinha me lembrado de pegar um guarda-chuva.
— Um maravilhoso plano. – Suspirei.
— Eu sei, é patético. Voltei para casa, com dor de estomago e entupido depois de
ter comido uns vinte Oreos, e minha mãe, uma senhora muito inteligente ainda que me
deixe furioso, fingiu que nada tinha acontecido. – Joe deu de ombros. – Os seus pais
farão o mesmo. Sabe disso, certo?
— Agora sei.
Estava tão decepcionada que um nó se formou em minha garganta. Na verdade eu
sabia desde o início como aquilo ia terminar, mas não podia ficar de braços cruzados;
talvez eu só o tenha feito para deixar claro minha frustração antes de enviar uma
mensagem aos meus pais.
Bati com as costas e ele me esmagou contra o chão com seu peso e suas pernas,
entrelaçadas com as minhas. Tampou minha boca com uma mão, mas eu consegui
libertar um braço. Nas aulas de autodefesa do meu antigo colégio, sempre dizia que tinha
que ir direto aos olhos, que tinha que golpeá-los, sem contemplações. Nunca tive dúvida
de poder fazê-lo quando tivesse na ocasião, já que seria para me colocar a salvo ou para
ajudar outra pessoa, mas estava tão apavorada que não sabia se poderia fazê-lo. Dobrei os
dedos, numa tentativa de me armar de algum valor.
— Você viu quem te seguia? – Sussurrou o sujeito nesse momento.
O olhei fixamente por alguns instantes. Ele retirou a mão da minha boca para que eu
pudesse responder. Minha cabeça pesava muito e tudo estava dando voltas.
— Está se referindo além de você? – Consegui dizer finalmente.
— De mim? – Ele nem tinha idéia do que eu estava falando. O sujeito lançou um
olhar furtivo por suas costas, como se continuasse na defensiva. – Você estava correndo
porque alguém estava te perseguindo... Não?
— Eu só corria. O único que me perseguia era você.
— Quer dizer que achava que... – O cara se separou de mim imediatamente para
que eu pudesse me mover. – Ah, ok, sinto muito. Não era minha intenção... Cara, devo
ter te dado um susto de morte.
— Então, sua intenção era me ajudar?
Tive que dizer em voz alta antes de conseguir acreditar. Ele assentiu vigorosamente
com a cabeça. Estava com o rosto muito próximo ao meu, perto demais, o que impedia de
ver outra coisa. Era como somente existíssemos nós dois e a névoa que se espessava ao
nosso redor.
— Sei que devo ter te assustado e sinto muito mesmo. Achava que...
Suas palavras não estavam servindo de grande ajuda. Estava cada vez mais irritada,
não menos. Precisava de ar e me tranqüilizar, entretanto isso era algo impossível com ele
tão perto de mim. Fiz um sinal com um dedo e disse algo que não creio ter falado a muita
gente, muito menos a um estranho, e muito menos ainda ao estranho que mais tinha me
aterrorizado na minha vida:
— Você... você quer... calar a boca?
Ele se calou.
Deixei cair minha cabeça contra o chão, soltando um suspiro. Levei as mãos nos
olhos e os apertei até ver tudo vermelho. Eu ainda tinha o gosto do sangue na boca e o
coração batia com tanta força que era como se meu peito estremecesse. Mais um pouco e
eu me mijava, talvez a única coisa que faltou para que aquela situação fosse mais
humilhante do que já era por si. No entanto, me limitei a respirar fundo, pouco a pouco,
até que me senti com forças para me recompor.
O cara continuava do meu lado.
— Por que me atirou no chão? – Consegui perguntar.
— Pensei que tínhamos que nos proteger e nos esconder de quem a estava
perseguindo, que no final se revelou ser, este... ninguém.
Ele parecia bem envergonhado.
Abaixou a cabeça e o olhei com tranqüilidade pela primeira vez. A verdade é que eu
não tinha tido tempo de me fixar em nada: quando a primeira coisa que pensa de alguém
é que ele é um "assassino pirado", você não analisa os detalhes. Dei-me conta que não se
tratava se um homem adulto, como eu tinha achado. Ainda que fosse alto e tivesse costas
largas, era jovem, talvez da mesma idade que eu. A corrida tinha-lhe alvoroçado o cabelo,
liso e preto, que caía na testa ocultando os olhos castanhos incrivelmente
escuros. Tinha a mandíbula forte e angulosa, e o corpo musculoso e robusto.
No entanto, o mais surpreendente de tudo era o que levava sob o casaco preto: botas
pretas, bastante surradas, calças pretas de lã e um suéter vermelho escuro de gola V,
estampado com um brasão: Dois corvos bordados de cada lado de uma espada prateada.
O escudo da Meia Noite.
— Você é aluno da escola. – eu disse.
— Bem, vou ser. – respondeu em voz baixa, como se temesse voltar a me assustar.
– E você?
Assenti com a cabeça enquanto desfazia o coque para refazê-lo.
— É o meu primeiro ano. Meus pais encontraram trabalho de professores, assim
que... me toca passar pelo aro.
Ele pareceu se surpreender, pois franziu o cenho. De repente seu olhar se voltou
mais inquieto e inseguro, porém se recompôs em seguida e me estendeu a mão.
— Joe Jonas
— Olá. – Me sentia estranha em me apresentar a alguém que há cinco minutos eu
achava que queria me matar. – Demi Lovato.
— Seu coração está a mil por hora. – murmurou Joe. Voltou a me olhar com
olhos inquisidores e fiquei nervosa, ainda que por motivos diferentes. – Ok, se não corria
por que tinha alguém te perseguindo, então porque corria daquela forma? Por que a mim
não pareceu que você estava dando no pé exatamente.
Eu teria mentido se me tivesse ocorrido uma desculpa cabível, mas não me ocorreu.
— Levantei de madrugada para... Bem, para fugir.
— Seus pais não te tratam bem? Eles te batem?
— Não! Não é isso. – Me senti muito ofendida, mas entendi que era lógico que
Joe deduzisse algo do tipo. Porque alguém em seu perfeito juízo entraria no bosque
antes de nascer o sol e disparar a correr como se a vida dependesse disso? Acabávamos
de nos conhecer, portanto Joe talvez pensasse que estava falando com uma pessoa sã.
Decidi não mencionar o pesadelo recorrente, pois isso pesou na balança para o lado
"louco". – É que eu não quero ir para essa escola. Eu gostava da minha cidade e, além do
mais, a Academia Meia Noite é... É tão...
— Faz com que arrepiem seus cabelos.
— Isso.
— Aonde você ia? Encontrou um trabalho em algum lugar por aí ou algo assim?
Eu estava corada e não era só pelo esforço físico da corrida.
— Ah, não. Na realidade eu não estava fugindo de verdade, só estava levando o
cabo uma... declaração de princípios, ou algo assim. Pensei que fizesse alguma coisa
desse tipo, meus pais finalmente entenderiam o quanto detesto estar aqui e talvez
fossemos embora.
Joe me olhou incrédulo e então sorriu. Seu sorriso transformou a estranha energia
que tinha se acumulado dentro de mim e transformou o medo em curiosidade, até mesmo
em entusiasmo.
— Como eu com o estilingue.
— O quê?
— Quando eu tinha cinco anos, pensei que meus pais estavam sendo injustos
comigo e decidi ir embora de casa. Levei o estilingue comigo porque já era todo um
machão, se me endente e eu era capaz de cuidar de mim mesmo. Acho que também levei
uma lanterna e um pacote de Oreo.
Apesar do aturdimento, me escapou um sorriso.
— Acho que estava mais preparado do que eu.
— Saí muito digno da casa em que vivíamos e cheguei até... o final do quintal dos
fundos, então resolvi resistir ali mesmo. Fiquei lá fora o dia todo, até que começou a
chover. Eu não tinha me lembrado de pegar um guarda-chuva.
— Um maravilhoso plano. – Suspirei.
— Eu sei, é patético. Voltei para casa, com dor de estomago e entupido depois de
ter comido uns vinte Oreos, e minha mãe, uma senhora muito inteligente ainda que me
deixe furioso, fingiu que nada tinha acontecido. – Joe deu de ombros. – Os seus pais
farão o mesmo. Sabe disso, certo?
— Agora sei.
Estava tão decepcionada que um nó se formou em minha garganta. Na verdade eu
sabia desde o início como aquilo ia terminar, mas não podia ficar de braços cruzados;
talvez eu só o tenha feito para deixar claro minha frustração antes de enviar uma
mensagem aos meus pais.
capitulo 1
Era o primeiro dia de aula, ou seja, a última chance de escapar.
Eu não tinha uma mochila com um kit de sobrevivência ou de uma
carteira volumosa para comprar um bilhete de avião para onde quer que
fosse, ou um amigo me esperando na rua, em um carro com o motor em marcha.
Resumindo: Precisava do que a maioria das pessoas em seu juízo perfeito chamaria de
“um plano”.
No entanto, dava na mesma, eu não pensava em ficar na Academia Meia Noite por
nada no mundo.
A fraca luz do amanhecer apontava no horizonte, enquanto eu tentava me enfiar nos
jeans embolados e tirava um grosso suéter preto. A essas horas da manhã e nas alturas em
que já estávamos, fazia frio, mesmo em Setembro. Prendi meus cabelos num coque feito
às presas e calcei as botas de montaria. Apesar da importância de não fazer barulho, eu
não me preocupava se meus pais acordariam. Eles não eram exatamente madrugadores,
por assim dizer. Caiam mortos na cama, até que soava o despertador e para isso ainda
faltava umas duas horas.
O que me dava uma boa vantagem.
Do outro lado da janela do meu quarto, a gárgula de pedra me ferroava com o olhar,
enquanto sorria para mim com uma careta ladeada por algumas proeminentes presas.
Peguei minha jaqueta jeans e lhe mostrei a língua.
— Da mesma forma que gosta de estar pendurada aí fora, no Baluarte dos Malditos
– murmurei – Então que aproveite.
Fiz a cama antes de sair. Normalmente têm que ficar em cima de mim para que eu a
faça, mas desta vez nem tiveram que me dizer. Eles já teriam o bastante com o ataque que
iam ter mais tarde e pensei que esticando a colcha me redimiria um pouquinho com eles.
Ainda que o mais provável fosse que eles não partilhassem dessa opinião, o fiz de
qualquer forma. Estava afofando as almofadas quando, de repente, me lembrei de algo
estranho tão vívido, como se ainda não tivesse acordado, algo que havia sonhado essa
mesma noite:
Uma flor cor de sangue.
O vento uivava entre as árvores que me envolviam, agitando os galhos em todas as
direções. Lá em cima, o céu se encobriu com nuvens tempestuosas. Afastei meus cabelos,
que puniam meu rosto. Eu só queria olhar a flor. As pétalas, peroladas de chuva, eram
de um vermelho vívido, langoroso e acentuado, como os de algumas orquídeas tropicais.
No entanto, a flor estava exuberante e completamente aberta, pendendo no ramo como
uma rosa. Era a mais exótica e fascinante flor que eu já tinha visto Ela tinha que ser
minha.
Porque essa lembrança me fez estremecer? Era só um sonho. Respirei fundo e me
concentrei. Era hora de partir.
Eu tinha a mala pronta. Eu a tinha enchido na noite anterior com apenas algumas
coisas: Um livro, óculos de sol e um pouco de dinheiro se no final precisasse ir até
Riverton, que era a coisa mais próxima da civilização que havia na área. Isso me manteria
ocupada o caminho todo.
Bem, eu não estava fugindo de casa, pelo menos não de verdade, como quando você
rompe com tudo e assume uma nova identidade e, sei lá, se junta a um circo ou algo
assim. Não, se tratava de uma declaração de princípios. Eu tinha me oposto desde o
primeiro momento em que meus pais deixaram transparecer a idéia que entraríamos na
Academia Meia Noite, eles como professores e eu como aluna. Tínhamos vivido na
mesma cidadezinha a vida inteira, eu tinha ido ao mesmo colégio com as mesmas pessoas
desde que tinha cinco anos e queria que continuasse sendo assim. Há pessoas que gostam
de conhecerem estranhos e fazem amigos com facilidade, mas eu nunca fui assim. De
jeito nenhum.
É engraçado como quando as pessoas te chamam de "tímida", elas costumam sorrir.
Como se tivesse graça, como fosse umas dessas manias que você acaba perdendo quando
se fica mais velho, como os vãos que ficam entre os dentes quando caem os de leite. Se
elas soubessem o que se sente quando não se trata só de que seja difícil quebrar o gelo,
mas sim de você ser tímido de verdade, elas não sorriria. Pensariam duas vezes se
soubessem que essa sensação te tortura o estomago, ou te faz suarem as mãos, ou te
impede de dizer algo que tenha sentido. Não tem nenhuma graça.
Meus pais nunca tinham sorrido ao falar sobre isso. Conheciam-me muito bem e por
isso sempre achei que eles me compreendiam... Até que decidiram que, com 17 anos,
tinha chegado a hora de superar. E que melhor lugar do que um internato? Ainda mais se
eles também iam inclusos no pacote.
De certa forma adivinhei o que eles propunham, ainda que fosse só em teoria.
Quando nos dirigimos à entrada da Academia Meia Noite e vi aquele bloco gótico de
pedra tão monstruoso, soube imediatamente que não ai ficar ali nem morta. Meus pais se
fariam de surdos, de modo que eu teria que obrigá-los a me ouvir.
Fui avançando nas pontas dos pés pelo pequeno apartamento para professores que
minha família tinha usado durante esse ultimo mês. Ouvi os leves roncos de minha mãe
atrás da porta fechada do quarto de meus pais. Coloquei a mochila no ombro, girei a
maçaneta lentamente e comecei descer as escadas. Vivíamos no alto de uma das torres da
Meia Noite, e sei que isso soa mais excitante do que é na verdade, já que implicava em
descer por uns degraus que tinham sido entalhados na rocha há mais de duzentos anos e
que, com o desgaste do tempo, agora eram irregulares. A grande escada de caracol tinha
poucas janelas e também não tinham acendido as luzes, de modo que a escuridão
contribuía para dificultar a descida.
Quando me abaixei para tomar a flor, a cerca abalou. Foi o vento, pensei, mas não
era o vento. Não, a vedação crescia e o fazia tão rápido que se podia ser apreciada em
primeiro lugar. Trepadeiras e Silvas abriam caminho pelas folhas através de um emaranhado de queixas. Antes que pudesse pensar em correr, a barreira quase havia me
cercado. Eu estava cercada por ramos, folhas e espinhos.
A última coisa que eu precisava era que meus pesadelos me assaltassem a cada dois
por três. Respirei fundo e continuei descendo os degraus até chegar ao grande Saguão do
térreo. Era um espaço majestoso, construído para emocionar, ou pelo menos
impressionar: Chão de mármore, tetos altos abobadados e janelas com vidraças que iam
desde o chão até as vigas formando um padrão caleidoscópio. Todas, menos uma no
mesmo centro, cujos vidros eram transparentes. Deviam ter acabado na noite anterior os
preparativos para o dia de hoje, pois já tinha disposto um pódio para a diretora, onde
receberia os alunos recém chegados. Parecia que todo mundo continuava dormindo, o
que significava que não tinha ninguém que pudesse me deter. Abri a pesada e
ornamentada porta de entrada com um forte empurrão e respirei liberdade.
As primeiras névoas da manhã cobriam tudo com um manto cinza azulado enquanto
eu e atravessava os prados que rodeavam o internato. No século XVIII, quando foi
construída a Academia Meia Noite, essa área era um bosque cerrado. Ainda que algumas
aldeias se espalhassem aos arredores, nenhuma estava próxima à Meia Noite; e apesar
das vistas dos vales e dos densos bosques, ninguém nunca tinha construído uma casa aos
arredores. E com toda razão. Quem iria querer ficar perto desse lugar? Voltei minha visão
para as altas torres da escola, ambas rodeadas pelas silhuetas retorcidas das gárgulas, e
estremeci. Mais alguns passos e elas começaram a desvanecer-se no nevoeiro.
Meia Noite se mostrava ameaçadora atrás de mim. Os muros de pedras das suas
torres era a única barreira que os espinhos não podiam romper. Deveria ter saído
correndo até a escola, mas não o fiz. Meia Noite era muito mais perigosa que os
espinhos e, além do mais, eu não pensava em ir sem a flor.
O pesadelo estava começando a parecer mais real que a realidade. Desconfortável,
dei meia volta e comecei a correr. Afastei-me dos prados e desapareci no bosque.
Logo tudo acabará, disse a mim mesma, abrindo passagem entre as folhas secas e os
ramos caídos dos pinheiros, que rangiam sob meus pés. Ainda que quase não houvesse
cem metros até a porta principal, tinha a sensação de estar muito mais longe. A densa
névoa fazia com que parecesse que eu já me encontrava no coração do bosques. “Meus
pais acordarão e se darão conta que não estou. No final compreenderão que eu não posso
suportar, que eles não podem obrigar-me. Sairão para me procurar e, ok, se irritarão
bastante por tê-los assustado deste jeito, mas vão entender. Sairemos da Academia Meia
Noite e não voltaremos nunca mais".
Estava com o coração apertado. Em vez de me reconfortar, cada passo que me
afastava da Academia Meia Noite colocava em prova a minha determinação. Antes, ao
elaborar o plano, tinha me parecido uma boa idéia, como se fosse infalível, mas agora
que era real e estava sozinha no bosque, entrando em sua espessura, eu não tinha tanta
certeza. Talvez estivesse fugindo para nada. E se me arrastassem de volta de qualquer
forma?
Um trovão explodiu. Meu pulso se acelerou. Virei definitivamente às costas para a
Meia Noite e observei a flor que se abateu entre seus ramos. O vento arrancou-lhe uma
pétala. Coloquei a mão entre os espinhos, senti que cortavam minha pele dolorosamente,
mas isso não me deteve; eu estava decidida.
Comecei a correr para o leste, tentando colocar terra entre Meia Noite e eu, e ao
mesmo tempo meu pesadelo insistia em me acompanhar. Era esse lugar. Arrepiava-me os
cabelos, fazia sentir-me inquieta e vazia. Se me afastava dali, tudo sairia bem. Respirando
com dificuldade, olhei para trás para verificar o quanto tinha me afastado... quando o vi.
A menos de cem metros de mim, havia um homem envolto por um casaco grande e
escuro, entre as arvores, meio oculto pela névoa. No momento em que nossos olhares se
encontraram, ele disparou a correr em minha direção.
Até esse momento não tinha conhecido o que era o medo. Uma sensação fria como
água gelada sacudiu todo o meu corpo e então descobri o quão rápido eu podia correr.
Não gritei. Pra que? Tinha entrado no bosque para que ninguém me encontrasse, a coisa
mais idiota que já tinha feito na vida e, pelo que parecia, também seria a última que faria.
Além do mais, para que eu ia levar um celular, se não tinha cobertura de sinal? Ninguém
viria me salvar. Tinha que correr o mais rápido que pudesse.
Ouvia seus passos atrás, quebrando ramos e afastando folhas. Estava chegando
perto. Deus, como ele era rápido! Como alguém podia correr a essa velocidade?
Te ensinam a se defender, pensei. Supõe-se que você sabe o que fazer em situações
como esta! Eu não me lembrava de nada, não podia pensar em nada. Os ramos rasgavam
as mangas da minha jaqueta e se enganchavam nas mechas de cabelo que tinham se
soltado do coque. Tropecei em uma pedra e mordi a língua, mas continuei correndo. O
homem estava cada vez mais perto, perto demais. Tinha que acelerar, mas não podia.
Eu não tinha uma mochila com um kit de sobrevivência ou de uma
carteira volumosa para comprar um bilhete de avião para onde quer que
fosse, ou um amigo me esperando na rua, em um carro com o motor em marcha.
Resumindo: Precisava do que a maioria das pessoas em seu juízo perfeito chamaria de
“um plano”.
No entanto, dava na mesma, eu não pensava em ficar na Academia Meia Noite por
nada no mundo.
A fraca luz do amanhecer apontava no horizonte, enquanto eu tentava me enfiar nos
jeans embolados e tirava um grosso suéter preto. A essas horas da manhã e nas alturas em
que já estávamos, fazia frio, mesmo em Setembro. Prendi meus cabelos num coque feito
às presas e calcei as botas de montaria. Apesar da importância de não fazer barulho, eu
não me preocupava se meus pais acordariam. Eles não eram exatamente madrugadores,
por assim dizer. Caiam mortos na cama, até que soava o despertador e para isso ainda
faltava umas duas horas.
O que me dava uma boa vantagem.
Do outro lado da janela do meu quarto, a gárgula de pedra me ferroava com o olhar,
enquanto sorria para mim com uma careta ladeada por algumas proeminentes presas.
Peguei minha jaqueta jeans e lhe mostrei a língua.
— Da mesma forma que gosta de estar pendurada aí fora, no Baluarte dos Malditos
– murmurei – Então que aproveite.
Fiz a cama antes de sair. Normalmente têm que ficar em cima de mim para que eu a
faça, mas desta vez nem tiveram que me dizer. Eles já teriam o bastante com o ataque que
iam ter mais tarde e pensei que esticando a colcha me redimiria um pouquinho com eles.
Ainda que o mais provável fosse que eles não partilhassem dessa opinião, o fiz de
qualquer forma. Estava afofando as almofadas quando, de repente, me lembrei de algo
estranho tão vívido, como se ainda não tivesse acordado, algo que havia sonhado essa
mesma noite:
Uma flor cor de sangue.
O vento uivava entre as árvores que me envolviam, agitando os galhos em todas as
direções. Lá em cima, o céu se encobriu com nuvens tempestuosas. Afastei meus cabelos,
que puniam meu rosto. Eu só queria olhar a flor. As pétalas, peroladas de chuva, eram
de um vermelho vívido, langoroso e acentuado, como os de algumas orquídeas tropicais.
No entanto, a flor estava exuberante e completamente aberta, pendendo no ramo como
uma rosa. Era a mais exótica e fascinante flor que eu já tinha visto Ela tinha que ser
minha.
Porque essa lembrança me fez estremecer? Era só um sonho. Respirei fundo e me
concentrei. Era hora de partir.
Eu tinha a mala pronta. Eu a tinha enchido na noite anterior com apenas algumas
coisas: Um livro, óculos de sol e um pouco de dinheiro se no final precisasse ir até
Riverton, que era a coisa mais próxima da civilização que havia na área. Isso me manteria
ocupada o caminho todo.
Bem, eu não estava fugindo de casa, pelo menos não de verdade, como quando você
rompe com tudo e assume uma nova identidade e, sei lá, se junta a um circo ou algo
assim. Não, se tratava de uma declaração de princípios. Eu tinha me oposto desde o
primeiro momento em que meus pais deixaram transparecer a idéia que entraríamos na
Academia Meia Noite, eles como professores e eu como aluna. Tínhamos vivido na
mesma cidadezinha a vida inteira, eu tinha ido ao mesmo colégio com as mesmas pessoas
desde que tinha cinco anos e queria que continuasse sendo assim. Há pessoas que gostam
de conhecerem estranhos e fazem amigos com facilidade, mas eu nunca fui assim. De
jeito nenhum.
É engraçado como quando as pessoas te chamam de "tímida", elas costumam sorrir.
Como se tivesse graça, como fosse umas dessas manias que você acaba perdendo quando
se fica mais velho, como os vãos que ficam entre os dentes quando caem os de leite. Se
elas soubessem o que se sente quando não se trata só de que seja difícil quebrar o gelo,
mas sim de você ser tímido de verdade, elas não sorriria. Pensariam duas vezes se
soubessem que essa sensação te tortura o estomago, ou te faz suarem as mãos, ou te
impede de dizer algo que tenha sentido. Não tem nenhuma graça.
Meus pais nunca tinham sorrido ao falar sobre isso. Conheciam-me muito bem e por
isso sempre achei que eles me compreendiam... Até que decidiram que, com 17 anos,
tinha chegado a hora de superar. E que melhor lugar do que um internato? Ainda mais se
eles também iam inclusos no pacote.
De certa forma adivinhei o que eles propunham, ainda que fosse só em teoria.
Quando nos dirigimos à entrada da Academia Meia Noite e vi aquele bloco gótico de
pedra tão monstruoso, soube imediatamente que não ai ficar ali nem morta. Meus pais se
fariam de surdos, de modo que eu teria que obrigá-los a me ouvir.
Fui avançando nas pontas dos pés pelo pequeno apartamento para professores que
minha família tinha usado durante esse ultimo mês. Ouvi os leves roncos de minha mãe
atrás da porta fechada do quarto de meus pais. Coloquei a mochila no ombro, girei a
maçaneta lentamente e comecei descer as escadas. Vivíamos no alto de uma das torres da
Meia Noite, e sei que isso soa mais excitante do que é na verdade, já que implicava em
descer por uns degraus que tinham sido entalhados na rocha há mais de duzentos anos e
que, com o desgaste do tempo, agora eram irregulares. A grande escada de caracol tinha
poucas janelas e também não tinham acendido as luzes, de modo que a escuridão
contribuía para dificultar a descida.
Quando me abaixei para tomar a flor, a cerca abalou. Foi o vento, pensei, mas não
era o vento. Não, a vedação crescia e o fazia tão rápido que se podia ser apreciada em
primeiro lugar. Trepadeiras e Silvas abriam caminho pelas folhas através de um emaranhado de queixas. Antes que pudesse pensar em correr, a barreira quase havia me
cercado. Eu estava cercada por ramos, folhas e espinhos.
A última coisa que eu precisava era que meus pesadelos me assaltassem a cada dois
por três. Respirei fundo e continuei descendo os degraus até chegar ao grande Saguão do
térreo. Era um espaço majestoso, construído para emocionar, ou pelo menos
impressionar: Chão de mármore, tetos altos abobadados e janelas com vidraças que iam
desde o chão até as vigas formando um padrão caleidoscópio. Todas, menos uma no
mesmo centro, cujos vidros eram transparentes. Deviam ter acabado na noite anterior os
preparativos para o dia de hoje, pois já tinha disposto um pódio para a diretora, onde
receberia os alunos recém chegados. Parecia que todo mundo continuava dormindo, o
que significava que não tinha ninguém que pudesse me deter. Abri a pesada e
ornamentada porta de entrada com um forte empurrão e respirei liberdade.
As primeiras névoas da manhã cobriam tudo com um manto cinza azulado enquanto
eu e atravessava os prados que rodeavam o internato. No século XVIII, quando foi
construída a Academia Meia Noite, essa área era um bosque cerrado. Ainda que algumas
aldeias se espalhassem aos arredores, nenhuma estava próxima à Meia Noite; e apesar
das vistas dos vales e dos densos bosques, ninguém nunca tinha construído uma casa aos
arredores. E com toda razão. Quem iria querer ficar perto desse lugar? Voltei minha visão
para as altas torres da escola, ambas rodeadas pelas silhuetas retorcidas das gárgulas, e
estremeci. Mais alguns passos e elas começaram a desvanecer-se no nevoeiro.
Meia Noite se mostrava ameaçadora atrás de mim. Os muros de pedras das suas
torres era a única barreira que os espinhos não podiam romper. Deveria ter saído
correndo até a escola, mas não o fiz. Meia Noite era muito mais perigosa que os
espinhos e, além do mais, eu não pensava em ir sem a flor.
O pesadelo estava começando a parecer mais real que a realidade. Desconfortável,
dei meia volta e comecei a correr. Afastei-me dos prados e desapareci no bosque.
Logo tudo acabará, disse a mim mesma, abrindo passagem entre as folhas secas e os
ramos caídos dos pinheiros, que rangiam sob meus pés. Ainda que quase não houvesse
cem metros até a porta principal, tinha a sensação de estar muito mais longe. A densa
névoa fazia com que parecesse que eu já me encontrava no coração do bosques. “Meus
pais acordarão e se darão conta que não estou. No final compreenderão que eu não posso
suportar, que eles não podem obrigar-me. Sairão para me procurar e, ok, se irritarão
bastante por tê-los assustado deste jeito, mas vão entender. Sairemos da Academia Meia
Noite e não voltaremos nunca mais".
Estava com o coração apertado. Em vez de me reconfortar, cada passo que me
afastava da Academia Meia Noite colocava em prova a minha determinação. Antes, ao
elaborar o plano, tinha me parecido uma boa idéia, como se fosse infalível, mas agora
que era real e estava sozinha no bosque, entrando em sua espessura, eu não tinha tanta
certeza. Talvez estivesse fugindo para nada. E se me arrastassem de volta de qualquer
forma?
Um trovão explodiu. Meu pulso se acelerou. Virei definitivamente às costas para a
Meia Noite e observei a flor que se abateu entre seus ramos. O vento arrancou-lhe uma
pétala. Coloquei a mão entre os espinhos, senti que cortavam minha pele dolorosamente,
mas isso não me deteve; eu estava decidida.
Comecei a correr para o leste, tentando colocar terra entre Meia Noite e eu, e ao
mesmo tempo meu pesadelo insistia em me acompanhar. Era esse lugar. Arrepiava-me os
cabelos, fazia sentir-me inquieta e vazia. Se me afastava dali, tudo sairia bem. Respirando
com dificuldade, olhei para trás para verificar o quanto tinha me afastado... quando o vi.
A menos de cem metros de mim, havia um homem envolto por um casaco grande e
escuro, entre as arvores, meio oculto pela névoa. No momento em que nossos olhares se
encontraram, ele disparou a correr em minha direção.
Até esse momento não tinha conhecido o que era o medo. Uma sensação fria como
água gelada sacudiu todo o meu corpo e então descobri o quão rápido eu podia correr.
Não gritei. Pra que? Tinha entrado no bosque para que ninguém me encontrasse, a coisa
mais idiota que já tinha feito na vida e, pelo que parecia, também seria a última que faria.
Além do mais, para que eu ia levar um celular, se não tinha cobertura de sinal? Ninguém
viria me salvar. Tinha que correr o mais rápido que pudesse.
Ouvia seus passos atrás, quebrando ramos e afastando folhas. Estava chegando
perto. Deus, como ele era rápido! Como alguém podia correr a essa velocidade?
Te ensinam a se defender, pensei. Supõe-se que você sabe o que fazer em situações
como esta! Eu não me lembrava de nada, não podia pensar em nada. Os ramos rasgavam
as mangas da minha jaqueta e se enganchavam nas mechas de cabelo que tinham se
soltado do coque. Tropecei em uma pedra e mordi a língua, mas continuei correndo. O
homem estava cada vez mais perto, perto demais. Tinha que acelerar, mas não podia.
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